SEBASTIÃO
NO SONHO
Para
Adolf Loos
A
mãe teve a criança sob a lua branca,
À sombra da nogueira, do sabugueiro secular,
Embriagada pela seiva da papoula, do lamento do melro; .
E silencioso
Sobre
elas inclinava-se piedoso um rosto barbado,
Discreto,
na escuridão da janela; e velharias
Dos antepassados
Jaziam podres. arnor e fantasia outonal.
Escuro
o dia do ano, triste infância,
Quando o rapaz desceu às águas frias, peixes prateados,
Quietude e semblante;
Quando petrificado jogou-se aos corcéis em disparada,
E em noite cinzenta sua estrela vinha sobre ele.
Ou
quando pela mão fria da mãe
À tardinha passava pelo outonal cemitério de São
Pedro;
Um frágil cadàver jazia inerte no escuro da câmara
E erguia sobre este as pálpebras geladas
Mas
ele era um pequeno pássaro em galhos nus,
O sino ao longo do novembro da noite,
O silêncio do pai, dorrnindo ao descer a espiral crepuscular.
Paz
da alma. Noite de invemo solitário,
As escuras sombras dos pastores no velho lago;
Criança na cabana de palha; quão discreta
Baixava o rosto em febre negra.
DE PROFUNDIS
Há
um restolhal, onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore marrom;ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer
Passando
pela aldeia
A terra órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.
Na
volta
Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.
Sou
uma sombra distante de lugarejos escuros.
O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.
Na
minha testa pisa metal frio
Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.
À
noite encontrei-me num pântano,
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
CANÇÕES
DO ROSÁRIO
À
IRMÃ
Para
onde vais será outono e tarde,
Veado azul que sob árvores soa,
Solitário lago na tarde.
Baixo
o vôo dos pássaros soa,
Sobre teus olhos a melancolia dos arcos,
Teu leve sorriso soa.
Das
tuas pálpebras Deus fez arcos.
Estrelas procuram à noite, filha de sexta-feira santa,
Na tua fronte, os arcos.
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
PROXIMIDADE
DA MORTE
2ª
versão
Oh,
a tarde, que vai às sombrias aldeias da infância.
O lago sob os salgueiros
1. Enche-se de suspiros empestados de melancolia.
Oh,
a floresta, que baixa discreta os olhos castanhos,
Quando das mãos magras do solitário
Cai a púrpura de seus dias extasiados.
Oh,
a proximidade da morte. Oremos.
Nesta noite em travesseiros momos
E amarelados de incenso soltam-se os membros frágeis dos
amantes
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
AMÉM
Decomposição
deslizando pelo quarto podre;
Sombras no papel de parede amarelo; em escuros espelhos se
Curva a tristeza ebúrnea de nossas mãos.
Pérolas marrons correm pelos dedos falecidos.
No silêncio
Abrem-se azuis os olhos-papoula de um anjo.
Azul
é também a tarde;
O momento de nossa morte, a sombra de Azrael,
Que escurece um jardinzinho marrom.
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
CANÇAO
DE KASPARHAUSER
para
Bessie Loos
Ele
de fato amava o sol que descia a colina purpúreo,
Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro
E a alegria do verde. ,
Sisuda
era sua morada à sombra da árvore
E puro o seu rosto.
Deus disse ao seu coração uma doce chama:
Homem!
Tranqüilo,
o seu passo encontrou a cidade à noite;
O lamento sombrio de sua boca:
Quero tomar-me cavaleiro.
Seguiram-no
porém arbusto e animal,
Casa e jardim crepuscular de gente branca,
E procurava-o seu assassino.
Primavera,
verão e belo o outono
Do justo, seu passo leve
Pelos quartos escuros de sonhadores.
À noite ficava sozinho com sua estrela;
Viu
que nevava em galhos nus,
E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa.
Prateada,
tombou a cabeça do não-nascido.
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
SEBASTIÃO
NO SONHO
Para
Adolf Loos
A
mãe teve a criança sob a lua branca,
À sombra da nogueira, do sabugueiro secular,
Embriagada pela seiva da papoula, do lamento do melro; .
E silencioso
Sobre
elas inclinava-se piedoso um rosto barbado,
Discreto,
na escuridão da janela; e velharias
Dos antepassados
Jaziam podres. arnor e fantasia outonal.
Escuro
o dia do ano, triste infância,
Quando o rapaz desceu às águas frias, peixes prateados,
Quietude e semblante;
Quando petrificado jogou-se aos corcéis em disparada,
E em noite cinzenta sua estrela vinha sobre ele.
Ou
quando pela mão fria da mãe
À tardinha passava pelo outonal cemitério de São
Pedro;
Um frágil cadàver jazia inerte no escuro da câmara
E erguia sobre este as pálpebras geladas
Mas
ele era um pequeno pássaro em galhos nus,
O sino ao longo do novembro da noite,
O silêncio do pai, dorrnindo ao descer a espiral crepuscular.
Paz
da alma. Noite de invemo solitário,
As escuras sombras dos pastores no velho lago;
Criança na cabana de palha; quão discreta
Baixava o rosto em febre negra.
Noite sagrada.
Ou quando pela bruta mão do pai
Subi em silêncio o sinistro Monte Calvário
E em crepusculares nichos dos rochedos
A figura azul do Homem passava pela sua lenda,
E da ferida sob o coração corria o sangue purpúreo.
Oh, com que leveza erguia-se a cruz na alma sombria.
Amor;
quando em recantos escuros derretia a neve,
Uma brisa azul aninhava-se alegre no velho sabugueiro,
Na abóbada de sombras da nogueira;
E à criança aparecia devagar um anjo rosado. .
Alegria
quando em quartos frios soava uma sonata noturna
Nas vigas de madeira marrom '
Saía da crisálida prateada.
Oh,
a proximidade da morte! Em muro de pedra
Inclinava-se uma cabeça amarela, a criança muda,
Quando naquele mês de março caía a lua.
Róseo
sino de Páscoa na abóbada tumular da noite
E as vozes prateadas das estrelas
Fizeram descer da fronte do adormecido uma sombria loucura
[em calafrios.
Oh,
tão silencioso um passeio pelo rio azul abaixo
Lembrandoo esquecido, quando nos galhos verdes
O melro chamava ao ocaso um desconhecido.
Ou
quando pela magra mão do ancião
Passava à noite ante o muro em ruínas da cidade
E aquele de casaco negro levava uma criança rosada,
E à sombra da nogueira aparecia o espírito do mal.
Tatear
os verdes degraus do verão. Oh, tão silenciosa
Ruína do jardim no silêncio marrom do outono,
Odor e melancolia do velho sabugueiro,
Quando na sombra de São Sebastião expirava a voz prateada
do anjo.
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
CALMA
E SILÊNCIO
Pastores
enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede.
No
cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.
Mas
sempre comove o vôo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.
De
novo a fronte anoitece em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
NASCIMENTO
Montanhas:
negror, neblina e neve.
Vermelha, a caça desce a floresta;
Oh, os olhares de musgo da presa.
Silêncio
da mãe; sob pinheiros negros
Abrem-se as mãos dormentes
Quando, vencida, aparece a fria lua.
Oh,
o nascimento do Homem. Noturna murmura
A água azul no fundo da rocha;
O anjo decaído olha em suspiros sua imagem,
E
pálido corpo desperta em câmara úmida.
Duas luas
Iluminam
os olhos da anciã pétrea.
Dor,
grito que dá à luz. Com asa negra
A noite toca a têmpora do menino,
Neve que desce de nuvem purpúrea.
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
VENTO
QUENTE
Lamento
cego no vento, dias lunares de inverno,
Infância, os passos se perdem discretos em negra sebe,
Longo toque noturno.
Discreta vem a noite branca,
Transforma
em sonhos purpúreos tormento e dor
Da vida pedregosa,
Para que nunca o espinho deixe o corpo em decomposição.
Profunda
em sono suspira a alma angustiada,
Profundo
o vento em árvores destruídas,
E a figura de lamento da mãe
Vagueia pela floresta solitária
Desse
luto silente; noites
Repletas de lágrimas, de anjos de fogo.
Prateado, espatifa-se contra a parede nua um esqueleto de criança.
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
AOS
EMUDECIDOS
Oh,
a loucura da cidade grande, quando ao entardecer
Árvores atrofiadas fitam inertes ao longo do muro negro
Que o espírito do mal observa com máscara prateada;
A luz, com açoite magnético, expulsa a noite pétrea.
Oh, o repicar perdido dos sinos da tarde.
A
puta, em gélidos calafrios, pare uma criança morta.
A cólera de Deus chicoteia enfurecida a fronte do possesso,
Epidemia purpúrea, fome que despedaça olhos verdes.
Oh, o terrífico riso do ouro.
Mas
quieta em caverna escura sangra muda a humanidade,
Constrói de duros metais a cabeça redentora.
(tradução:
Cláudia Cavalcante)
CANTO
DO DESTERRADO
A
Karl Borromäus Heinrich
Pleno de harmonias é o voo das aves. As verdes florestas
Juntaram-se à noitinha em cabanas mais tranquilas;
E os pastos cristalinos da corça.
O escuro acalma o murmúrio do regato, as sombras húmidas
E
as flores do verão, que soam belas ao vento.
Crepuscula já a fi.onte ao homem pensativo.
E
uma luzinha, a da bondade, se acende no seu coração
E a paz da ceia; pois santificados estão o pão e o vinho
Pelas mãos de Deus, com olhos de noite o irmão
Contempla-te calmamente, para repousar da espinhosa
caminhada.
Oh, este viver no azul anímico da noite.
Com
amor também, o silêncio envolve no quarto as sombras
dos velhos,
Os martírios purpúreos, lamento de uma grande geração,
Que aí vai agora, piedosa, no filho solitário.
Porque, mais radiante sempre, acorda dos negros minutos da
loucura
O sofredor em soleira petrificada
E poderosamente o envolve o frio azul e o declinar cintilante
do outono,
A
casa tranqüila e as lendas da floresta,
Lei e medida, e os atalhos lunares dos desterrados.
(tradução:
João
Barrento)
GRODEK
Ao
entardecer, as florestas outonais
ecoam de armas mortíferas, e as planícies douradas
e os lagos azuis, por sobre os quais rola
um sol sombrio; a noite abraça
guerreiros moribundos, o lamento selvagem
das suas bocas destroçadas.
Mas, em silêncio, num fundo de salgueiros,
juntam-se nuvens rubras, onde um Deus irado habita;
e o sangue derramado, e frescura lunar;
todos os caminhos desembocam em negra podridão.
Sob dourada ramagem da noite e sob estrelas
a sombra da irmã vacila pelo bosque de silêncio,
para saudar os espíritos dos heróis, as cabeças
ensangüentadas;
e levemente, nos canaviais, soam as flautas sombrias do
outono.
Oh, dor orgulhosa! Vós, brônzeos altares,
Uma dor portentosa alimenta hoje a chama escaldante do
espírito,
Os filhos que ainda hão-de nascer.
(tradução:
João
Barrento)
NO
OUTONO
Junto
à cerca, os girassóis e seu brilho,
Doentes sentados ao sol, sem alento.
No campo, as mulheres cantam no trabalho,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Os
pássaros contam lendas de encantar,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Há um violino no pátio a gemer.
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Todos
parecem felizes, libertos,
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Os jazigos dos mortos estão abertos,
Pintados pelo sol que vai entrando.
(tradução:
João
Barrento)
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