MATINÊ

As sessões
eram às quatro
e a sala
superlotava
(tantos suores).

John Wayne
matava
meio-mundo
e assobiava
uma canção
nos intervalos.

Depois
os heróis
foram definhando
como almas
que perdessem
a luminosidade.

Nunca mais fui à matinê.

 

 

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AFAGO

A mão
(suponhamos
a esquerda)
tonteia
o cálice
passeia
silente
às margens
do corpo
e estende
a carícia
sobre
a madrugada:
abismos.

 

 

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GALOPE

Preciso
o sopro
da palavra
a consistir
em voz
(enigma
do verso).

Preciso
o fustigar
o dorso
de cada
sílaba
esse galope.

O poema
é esse
animal
multifacetado.

 

 

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MADRUGADA

Folhear
os últimos poemas;
comer
o fruto
sobre o armário;
acordar
velhos fantasmas
- o coração,
esse túmulo:
itinerários.

Beber
um copo
de conhaque;
esquecer
os últimos poemas;
esquecer
- viagem
pela memória.

Ana C.
nos conta
de seu íntimo
coletivo:
túmulo,
túmulo,
túmulo.

 

 

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              7 DE SETEMBRO

O poema
é a pátria
de todas
as angústias.

 



Alfredo Garcia Bragança
alfredogarcia61@gmail.com